Quantas vezes abordamos um projeto ou fase potencialmente arriscados na nossa vida profissional ou pessoal e nada fizemos a respeito? Sim, podemos sentir algum desconforto, mas acalmamo-nos com o pensamento de que já realizámos isto milhares de vezes sem problemas – logo, tudo correrá bem. Além disso, somos otimistas por natureza; não vale a pena preocuparmo-nos demasiado. Lembramo-nos de que temos experiência.
Em geral, e com razão, a experiência é considerada uma qualidade positiva. Permite-nos antecipar possíveis riscos e melhorar o nosso raciocínio. Ajuda-nos também a compreender os problemas e a encontrar soluções eficazes – tal como o Sr. Miyagi fez para o Karate Kid (sim, acabei de assistir à série Cobra Kai na Netflix). Contudo, como sucede com tantas situações de risco do quotidiano, também a experiência tem um outro lado.
A capacidade dos profissionais experientes de avaliarem rapidamente decisões complexas constitui o foco das pesquisas do psicólogo Gary Klein. Os extensos trabalhos deste autor na área da tomada de decisão naturalista por parte de especialistas revelam, no entanto, algumas armadilhas inerentes à experiência. Os padrões cognitivos que estes profissionais utilizam para prever resultados podem levar a diagnósticos errados; encontram um atalho – mas é um atalho incorreto –, cometendo assim erros típicos de ‘especialistas’. Pode ser o início da complacência ou algo ainda mais profundamente enraizado na nossa psicologia. Há igualmente outras características humanas que merecem atenção, como a Teoria da Homeostase do Risco. Esta teoria afirma que o nosso apetite pelo risco aumenta à medida que ganhamos familiaridade ou experiência num determinado âmbito. Foi proposta pela primeira vez em 1982 por Gerald Wilde (um nome perfeito para alguém dedicado ao estudo do comportamento em situações de risco!) e, embora seja contestada por alguns académicos, suscita reflexões interessantes. Wilde observou que após a mudança da condução pela esquerda para a direita na Suécia, as taxas de acidentes diminuíram durante os primeiros dezoito meses – até que os condutores se tornaram mais experientes neste novo contexto de risco e as estatísticas voltaram a subir.
No que toca à experiência, também vale a pena considerar que o tempo não garante necessariamente um melhor desempenho. Estudos realizados com médicos nos EUA revelaram que muitos deles não apresentaram qualquer melhora nas suas competências profissionais; alguns até pioraram ao longo do tempo. Contudo, isto contradiz diversas estruturas organizacionais e as nossas próprias suposições acerca da aptidão das pessoas para determinadas funções. Tal situação pode cegar-nos a potenciais riscos devido à associação equivocada que fazemos naturalmente entre experiência e competência. As pessoas podem ser o nosso maior ativo, mas para que alcancem todo o seu potencial como líderes e gestores, é fundamental que compreendam os riscos associados ao comportamento humano. Parte dessa compreensão advém da experiência, porém outra parte deve ser adquirida através de formação de qualidade e fundamentada em evidências científicas.
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